24 de setembro de 2013

Pequenas Aventuras 3


A  mente corre solta, como um cavalo no campo
Mas nesse campo tem uma cerca
E essa cerca, lhe dá a segurança de ter feito a escolha certa
Mas, não impede os pensamentos que trilham caminhos passados
Caminhos que nunca mais voltarão a ser trilhados.



[Ana Sixx]

20 de setembro de 2013

Sobre parto, grana e prioridades

Estou nesse mundo de parto na internet desde 2004, e nesse período já li e ouvi todo tipo de coisa.
Gosto do tema, ele é envolvente e apaixonante porque mexe com o nosso fisiológico e também com um dos sentimentos mais fortes que existe dentro do ser humano que é a maternidade. Aprendemos tanta coisa quando vamos atrás da informação, e conseguimos traçar paralelos entre o que é o ideal e o que é a realidade obstétrica no nosso país.
Um parto digno no nosso país, é sinônimo de luta, de agarrar toco de pau na mão e sair pra guerrear, porque é quase uma loteria esportiva você conseguir um profissional que realmente preze pela qualidade do nascimento, pelo nascer bem, pela satisfação daquela mulher que está ali desejosa apenas daquilo que é seu por direito. Parir.
Acompanho muitas histórias, tentem imaginar quantas, pela quantidade de tempo que participo de listas, grupos e tudo mais.  E já posso desenhar tranquilamente o perfil das mulheres que desejam realmente um parto normal.
Mas, não é disso que quero falar, não quero desenhar perfis, o que eu quero é comentar sobre algo que me incomoda muito.

Eu particularmente, acho que não deveria haver a opção de parto cirúrgico para mulher nenhuma, todas teriam que ter seus filhos através de parto normal, EXCETO, aquelas que tivessem em uma situação REAL de risco.  Mas, isso também é utópico, eu sei, a nossa realidade, infelizmente, é que o parto, acabou se tornando um ato cirúrgico, e que o tipo de atendimento oferecido pela maioria dos profissionais afasta mais ainda as mulheres do parto normal.

Mas sabe o que me deixa perplexa é ver a facilidade que as pessoas tem em priorizar as coisas.
Por exemplo:
A pessoa tem um plano de saúde, paga uma grana nele, e não abre mão de ter seu filho através dele. Essa é a lógica né? 
Correto seria se pudéssemos ter o atendimento pela grana que pagamos durante anos e anos a fio. Mas essa não é a realidade.
A realidade é que nascimento de filho com médico de plano é a mesma coisa que você assinar um termo de concordância com o parto cirúrgico. Porque você simplesmente não vai conseguir parir pelo plano.Fato.
E nas poucas vezes que se consegue um parto normal, você tem que se entregar a Deus, porque de tudo você pode ganhar de brinde (ocitocina, epísio, falta de acolhimento, etc, etc e etc).

Aí, você vai desenvolver uma conversa com a pessoa e ela de cara vai falar sobre o problema financeiro. Dizer que infelizmente não tem como pagar um atendimento particular, que já paga o plano caríssimo e tals. Dizer que queria muito ter um parto normal, mas infelizmente vai ter que continuar no médico do plano e que já conversou com ele e que o mesmo se comprometeu em esperar até as 40semanas (?)  e só a partir daí, fará uma cirurgia já que o bebê pode entrar em sofrimento e etc. (Existem muitas variações nessas justificativas, mas de qualquer forma, todas vão levar ao parto cirúrgico)

E assim, vai, se entrega pra equipe médica e pronto.  Algumas continuam achando que fez o melhor, que o “parto” foi ótimo, que seus filhos nasceram super bem, e que não vê mal nenhum em ter os filhos assim, e que certamente fará novamente se tiver outro filho.  Outras tantas, sentem enormemente, conseguem visualizar o estrago, a extração do bebê, a frieza dos médicos, a solidão do sentimento da perda de um evento único.

Mas, vamos voltar, as que dizem não ter condições financeiras de arcar com um parto, porque não tem grana, que tá apertado, que não pode ter parto normal porque é muito caro, blábláblá wiskas sachê..
É que essas mesmas pessoas, gastam o que tem e o que não tem para fazer um enxoval, tem gente inclusive que  viaja para outro país para comprar roupas do bebê mais em conta (ué, vc não tava sem grana?). Faz mega quarto, mega decoração, mega álbum de gestante, tudo isso no nível estratosférico, algumas inclusive já começam a pensar na festa de 1 ano do filho, enfim, e tudo isso só porque a cidadã não tinha dinheiro para pagar um parto legal para ela e o filho.

Perguntas que me vem a cabeça:
             - O que é prioridade?
           -Quantas vezes um filho nasce?
           -O que vai ficar gravada na memória dessa mulher? Um lindo e fofo quarto, ou o momento do           nascimento do seu filho?

Filho só nasce uma vez!
Você vai ter todo o tempo do mundo para escolher roupas, quartos bonitos, festas e todas aquelas coisas que faz a alegria de toda mãe (ou quase todas), mas seu filho só vai nascer uma vez.
Aquele momento é único, entenda isso, não jogue essa ÚNICA oportunidade no lixo.
Aqui, eu priorizei os nascimentos das meninas.  Dei o nascimento correto a elas, que foram respeitadas na chegada ao mundo e dei a mim e ao meu companheiro uma vivência extremamente emocionante. 
Acredito que todo nascimento é emocionante, mas duvido muito, que a emoção de um parto normal possa ser comparado aquele do ato cirúrgico, onde a mulher é cortada, e fica a mercê do sistema.  Sem poder amamentar, acalentar, abraçar, sentir, ter o primeiro contato real (não falo daquele momento foto de parto com marido, mulher e criança enrolada como um pacote de pão) com seu filho.

A intenção do post é apenas reflexão.

Você prioriza o que, no nascimento do seu filho?
Reflita!

bjs




16 de setembro de 2013

Pequenas Aventuras 2


Daquela noite, 
Eu só guardei o seu olhar....

                                                       ...para Zíngara...



    [Ana Sixx]

Pequenas Aventuras 1


Quando ele foi embora
Abriu-se um buraco
Sem fim...

[Ana Sixx]


ps: abrindo possibilidades na escrita, tentando colocar em palavras as coisas que me avoam na mente...Vamos ver se consigo....não me levem a mal.

13 de setembro de 2013

Estrelas Guias !


Das coisas boas da vida, eu diria, das melhores coisas da vida, estão os filhos.
Como consegui viver durante 35 anos sem elas?
Acho que sobrevivi, a procura de um amor que me transbordasse por toda a vida, e finalmente consegui chegar a esse patamar.
Filhos dão trabalho,  são extenuantes, e você se vê as vezes berrando como uma louca por causa deles, mas, são as melhores coisas que podem existir nessa galáxia.
De longe, melhor que chocolate e melhor que a melhor música de todos os tempos.
Eu amo estar com elas, viver com elas e para elas.
Me saturar delas, para que no futuro, eu possa sim abrir minhas asas e soltá-las livres, plenas, com a certeza de que foram imensamente amadas um dia.
No momento, são filhotas pequenas e permanecem debaixo de minhas asas protetoras.

A cada dia que passa,  tenho mais certeza da escolha que fiz, optando por não terceirizar a criação das minhas meninas, foi a melhor coisa que fiz para todos nós!
Cora e Nina, eu amo vocês !!!

bjs

10 de setembro de 2013

Dona Eudízia Vieira !!!!






No dia 10 de setembro de 1989, ela tava fechando seu ciclo, depois de uma curta e sofrida luta contra um câncer no esôfago.
Já se passaram 24 anos, e posso dizer, que durante todo esse tempo, sempre a tive nos meus pensamentos. Desejando muito que ela tivesse viva para que pudesse participar das minhas conquistas, das minhas alegrias e também das minhas tristezas.

Essa pessoa que era minha avó materna, se chamava Eudízia Vieira, paraibana, analfabeta, mãe, guerreira, costureira. Era nascida e residia em Taperoá na Paraíba.
Todos os anos ela vinha para o RJ, ver seus filhos e netos que aqui moravam. Ela ficava na nossa casa, onde tinha a máquina singer dela, que hoje está comigo, na minha sala. E intercalava a casa dos filhos, visitando todos, sem distinção, mas sempre voltando pra nossa.

Tive o prazer de conviver 17 anos com ela.  Pra mim foram poucos anos, mas na real, foram os anos possíveis. Adoráveis anos.

Tenho saudades de ti Eudízia, minha vózinha.  Da maciez da sua pele, do seu cheirinho de talco Promessa, do cabelo tão fininho e macio, da voz grossa e nordestina, as pelanquinhas que eu amava puxar carinhosamente, do barulho da sua máquina, do seu pé arrastando fiapos e retalhos por toda casa....do seu bife cheio de coloral, da senhora sentadinha de cócoras lá na porta da cozinha, da sua reza noturna que nunca de forma alguma deixava de fazer, da sua risada, do seu deboche, da sua graça, do seu olhar.....
Ah Dona Eudízia farei 100 anos e jamais te esquecerei.

Na gestação de Nina, tive um sonho com ela, tão real, mas tão real, que pude matar a saudade e acordei chorando.  Ela está sempre perto de mim!

Vou colocar aqui, uma música que eu não posso ouvir pra não chorar, porque quando eu era pequena, e ela vinha pra minha casa, cantava pra mim...




Quando a saudade aperta, eu fecho os olhos, sinto seu cheiro, e penso nessa música.
Um dia estaremos juntas, tenho certeza disso!

ps: nessa foto, ela e a minha irmã, era pra eu estar na foto também, mas brigamos na hora de tirar a foto e eu não tirei por pura pirraça.... Como somos burros quando criança :-(

bjs

4 de setembro de 2013

Será II ?

Tem coisas que só a gente sente....
E as outras pessoas, simplesmente não entendem, e tratam uma coisa tão genuína com desdém, como se fosse uma maluquice, um troço sem sentido, um absurdo na terra...
Eu te desejo, e é simples assim.  Sinto como se faltasse você.
Que eu nem sei quem é.
Porque na real, tudo pode ser uma manifestação do meu desejo, e até esse sentir ser apenas projeção disso, mas sinto, ponto.
O que fazer?
Sufocar?
Esquecer?
Não fazer?

Eu não tenho muito tempo, o tempo tá corrido pra mim, e eu preciso dessa definição...


bjs

16 de julho de 2013

18 anos de União!



Hoje é o Dia Internacional do Rock'N'Roll, e não poderia ter sido em outra data nosso início.
Completamos hoje, 18 anos juntos.
Daquele encontro na festa julina da Praça da Alegria na Rural até hoje, tanta, mas tanta coisa juntos que um livro poderia ser escrito.
O bom de se completar 18 anos de relacionamento, é você olhar pra trás e pensar:
Faria tudo, absolutamente tudo novamente!
É você olhar pro cidadão, todo dia e pensar: Como eu amo esse cara!
É você ter a satisfação de manter aquele mesmo papo engraçadíssimo, que rolava lá atrás no início de tudo.
Sim, é possível vc se descobrir enamorada todos os dias.
E naquelas horas que a chatice, de ambos é maior, cantar o VTNC sem grilos.
Sentir o olhar de admiração do seu companheiro, mesmo depois de tanto tempo...

Obrigada meu Binho, por tantas alegrias, pelas tristezas também (elas nos deixaram fortes), pelas filhas, pelos dogs, pelas gargalhadas, pelo companheirismo, pela amizade e pelo amor....

E vamos pra frente, sempre, nos respeitando, nos admirando, nos curtindo e nos amando...

Xiexi pra caraleo !! 

"Ai! Se sêsse!...

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dos se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e tu cum eu insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?...
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!"

*Poeta: Zé da Luz

obs: essa foto foi tirada na virada de ano 95/96, o nosso primeiro Reveillon juntos !

bjs

26 de abril de 2013

Meus amores felinos



Aprendi a gostar de gatos, assim do nada.
Eles são esteticamente lindos. 
Também são misteriosos, amáveis, carinhosos, voluntariosos, dependentes, engraçados, brincalhões e amigos.
Quando criança, sonhava em ter um gato só meu, assim de rua mesmo, chamado vira-latas por alguns, por mim, simplesmente gato.  Mas, meus pais nunca gostaram de bicho, minha mãe principalmente, e por isso nunca os pude ter. Cresci curtindo os gatos dos outros e pensando que um dia teria o meu.
Cresci, e casei, logo no primeiro mês arrumei um gato, do jeito que eu sonhava, tigrado lindo, com uma marcação única, e logo o chamei de Severino, que naturalmente acabou sendo apelidado de Bill.  Vida difícil essa figura teve, coisa de nordestino mesmo, por isso o nome, que aliás é o mesmo do meu pai.
Um mês depois chega um outro, para fazer companhia a Bill, esse era persa (com uma ascendência misturada), e era muito fofo, ganhou o nome de Bob.
Isso foi em 2001.
Passamos por 5 mudanças com eles, nunca tiveram acesso a rua, porque pra mim lugar de gato é dentro de casa.  Nunca sequer passou pela minha cabeça vê-los saracoteando por aí, vulneráveis a todo tipo de desgraça e a ruindade do cerumano.
Destruíram o que puderam, sim, porque gatos são terríveis, e são capazes das maiores traquinagens da face da terra.
E foram muito amados.
Lutei para mantê-los comigo, ouvi todo tipo de bobagem e besteirada na época da gravidez da Cora.
Vi muitas pessoas que batiam no peito falando que jamais se desfariam de um gato se tivessem filhos, e pouco tempo na gravidez,  ver essas mesmas pessoas se desfazendo, como se os bichos fossem objetos.
Não é fácil quando se cria e se ama sozinho.
Binho nunca curtiu, aceitou que eu os pegasse por mim, e não por ele.
E na convivência diária foi pegando uma mega implicância com meus felinos, meu marido é dez, mas não é perfeito, e não curte gatos, agora tenho certeza disso.

Em novembro, após a última mudança, Bob desenvolveu pela 2a vez uma lipidose hepática, só que dessa vez veio tão certeira que não consegui salvá-lo, foi-se meu Bob em 26/11/2012.
Pensei, Bill não demora muito, e assim foi, dia 4/04/2013, foi meu Bill também.

Ficou um buraco, uma saudade, coisa que só quem gosta de gato sabe do que estou falando.
Decidi não ter mais felinos, porque não posso abraçar isso sozinha, e não posso contar com Binho.
Enfim, é isso, esse post é apenas uma despedida.
Para os gatos mais fofos que eu já tive.
Tá tudo gravado aqui na minha memória, tudo!

Continuarei agora uma adoradora de felinos, mas sem felinos....

Bill

Bob


28 de janeiro de 2013

Ainda sobre a morte.....

Minha última postagem foi sobre a morte, e incrivelmente depois dela, li essa mensagem no facebook.
Acho que todas as pessoas deveriam ler, e refletir muito sobre as coisas da vida e da morte...

Ontem de madrugada, mais de 230 jovens morreram asfixiados e pisoteados em uma boate, quando apenas queriam se divertir.  Tudo por uma incapacidade do ser humano de ser honesto naquilo que faz, serviços de má qualidade, colocando a vida de pessoas em risco.
Um imenso e afetuoso abraço aos familiares e amigos desses jovens.
E que tudo isso não seja em vão, que as autoridades comecem a realmente fiscalizar e cobrar o correto.

Copio aqui o texo, lindo e eterno:

"O que falar para alguém que está prestes à morrer?
 Nota de falecimento de R.




Lindas e frágeis, como a vida
Meu nome é Frederico Mattos, tenho 31 anos, sou psicólogo e escrevo o http://www.sobreavida.com.br/, um blog sobre coisas da vida e relacionamentos. Um leitor me enviou esse email: -  http://goo.gl/2zsHn 


Olá Fred,

Já que a Dona M. tomou coragem e confessou que nunca amou o marido de 30 anos eu tomei a liberdade de mandar esse e-mail.

Enviei logo cedo após receber meus remédios para que você pudesse ler logo que acordasse. Espero que não se importe.

Estou há uma semana internado num bom hospital e entre um mal-estar e outro tenho lido seu blog. Logo que me internei um amigo me disse: acho que agora é hora de pensar sobre a vida. Sou viciado em tecnologia, peguei meu iPad (foi a única coisa que pedi que os médicos não me tirassem) e digitei no Google “sobre a vida”. Surgiu seu blog e confesso que pensei “mais um blog de merda falando blábláblá”. Não dei confiança, mas depois de não achar nada muito interessante voltei ali.

Tenho 28 anos, minha barba cultivada com gosto para que eu aparente mais idade está caindo, isso me aborrece.
A questão que me intriga é que vou morrer e não sei o que fazer diante da morte. Vou morrer em breve, talvez eu não receba sua resposta. Claro que não estou pendente disso para morrer (isso está infelizmente fora de minhas mãos), mas filhadaputamente o padre que veio me visitar e não gostei do que ouvi. Sei que ele trouxe palavras bondosas, mas tão vazias de real sentido para mim que aproveitei que eu estava vomitando que nem um desgraçado para enxotar aquele velho de batina. Minha doença me consome rapidamente e não acredito em nada para além desta vida, nem preciso acreditar. Sou ateu (o máximo de fé que tenho é fazer figuinhas, pois mamãe me ensinou e lembro dela quando faço) e sinceramente não me culpo por isso.

Tive uma vida cheia de acontecimentos, aproveitei tudo mesmo, sem exageros ou excentricidades. Minha doença é um tipo de problema genético, raro e fatal. Os médicos não afirmam nada (eles sempre estão um pouco emburrados), mas já pesquisei na internet e realmente acho que vou bater as botas mais rápido do que eu queria.
Fiquei pensando o que você, como psicólogo, teria a dizer para alguém que tem algumas horas ou dias de vida ainda pela frente? Se eu não conseguir ler a resposta espero que ajude alguém nas mesmas condições ou que ajude qualquer um.

Abraço,
R.”


Caro R.

Acho que não estou em posição de aconselhar alguém que está em uma condição única e porque não dizer privilegiada como a sua. Sim, privilegiada. Estar diante do próprio fim e fazer a pergunta certa não é tão simples.

Já que você digitou no Google SOBRE A VIDA, vou falar algumas coisas que penso sobre a vida. Espero que sirvam.
Na vida eu finjo que não tenho medo da morte faz muito tempo. Eu tenho construído um castelo de certezas, de virtudes e de sentido para simplesmente negar o fato de que vou morrer, assim como você.

Na vida vi que todas as amizades que tenho são para me deixar menos sozinho comigo mesmo. Além disso evitar saber que tudo irá acabar de um momento para o outro. Mas elas dão um colorido diferente para o passar dos anos. Algumas valem a pena cultivar, outras são passageiras e deixam uma marca, algumas temos o dever moral de levar para a vida inteira.

Na vida não tenho certeza de nada e noto que a maior parte das pessoas não tem. Mas não perdemos a irresistível atração em fingir que sabemos de tudo. Antes eu ouvia os bons conselhos, agora duvido deles. Sempre me parecem demasiado polidos ou conservadores. Como aquelas tias velhas que tem medo de atravessar a rua e recomendam que você não faça o mesmo.

Com as críticas ainda tenho dificuldades, confesso que quando me dizem que sou metido a sabichão ainda fico meio doído. Acho que é pelo fato de que a pessoa ainda não me conheceu de verdade e me julga pelas minhas defesas. A prepotência que me resta é só um jeito falsamente forte que encontrei para que eu não seja inundado pelo mar de amor que sinto, mas me fragiliza.

Pelo visto você é uma pessoa que foi agraciada pelo bem estar financeiro. Isso é excelente, com o tempo aprendi que o dinheiro pode ser um grande amigo de boas realizações. Que ele é a chave mestra que reflete o fruto do meu trabalho e que me abre portas para conhecer coisas que eu nunca poderia sem ele. O dinheiro não é meu inimigo e nem meu amigo, apenas um cúmplice daquilo que quero ser. O meu dinheiro sou eu em forma de notas. O dinheiro de cada um reflete o que a pessoa é.

Também me parece que você é muito amado pelas pessoas. Essencialmente cercado de pessoas boas que te recomendam no momento mais difícil que pense sobre a vida. Isso parece que é a grande fórmula para viver e morrer feliz. Nos cercamos de muitas pessoas que nos fazem mal, nos colocam para baixo e subestimam nossa capacidade. Elas querem nos ajudar de um jeito que reforça nossa infantilidade e passividade na vida. Com o tempo procurei selecionar as pessoas do meu convívio. Conheci amigos maravilhosos, terminei relacionamentos que me faziam mal e cultivei bons hábitos como me encontrar sempre que possível com as pessoas que eu amo. Meus livros que eu tanto adorava ler com exclusividade absoluta agora estão um pouco de lado. Ainda os amo, mas livros sem pessoas são apenas folhas sem sentido. O verdadeiro livro que sempre quis escrever já está sendo escrito no longo dos meus dias. Acho que o seu livro não-publicado deve ter excelentes páginas e narrativas memoráveis. Deixe que isso te alegre, inclusive agora.

Com o tempo eu percebi que a cereja do bolo da minha vida não foi composta de grandes eventos ou celebrações. Mas foi no tecido invisível dos minutos discretos que ninguém reparava. Eu sempre soube que aqueles pequenos gestos de gentileza é que realmente fazem a diferença. Acordar um pouco mais cedo para dar a mão para uma pessoa. Levantar da cama antes e pegar o copo d’água. Consolar uma lágrima que não foi anunciada. Pequenas coisas pelas quais você não vai ganhar nenhum prêmio ou recompensa e ainda assim devem ser feitas.

Meu caro R. tenho medo, muito medo de tudo. Medo de falhar, fracassar, decepcionar, fraquejar, deprimir até parar com tudo e ficar maluco, as vezes enfrento dias difíceis (na minha cabeça) que penso que não vou aguentar. Mas administro esse medo da seguinte maneira, sei que são apenas medos, nada além disso. Um jeito meio menino de fantasiar as coisas maiores do que realmente são só para que depois eu brinque de super-homem. Afinal quanto maior meu obstáculo, mais eu acho que fui invencível na superação.

Hoje tenho rido muito mais de mim, sou um desastrado. Não sei cortar uma melancia sem sujar toda a pia e ela ficar parecida com um leque torto e feio. Me perco no transito, mesmo com GPS. Falo coisas fora de hora. Confesso meu amor antes do tempo. Tolero coisas intoleráveis por mais tempo que devia. Sou um bobo incorrigível. Mas, afinal, essa é a versão improvisada de mim mesmo, sei que com o tempo esse eu de hoje será uma lembrança pálida no eu de amanhã. Então rir de mim me ajudou a não me magoar tanto ou me levar tão à sério), afinal todos somos rascunhos da vida. Perdidos como ratos pelados.

Lidar com pessoas sempre foi um desafio para mim. Sou sensível ao extremo, um sorriso me levanta e um olhar de desaprovação me derruba. Comecei a entender, a duras penas que não posso ter controle do que os outros sentem por mim. Se você me odeia problema seu, se me ama também. Pode parecer uma visão radical ou uma fala grosseira. Mas se pudesse me ouvir agora dizendo isso seria com uma voz doce e com sorriso nos olhos. O ódio que sente por mim é responsabilidade sua, o amor que sente também. O máximo que posso fazer é dançar em volta do seu coração até que seu ódio se acalme e me veja humano (com o que tenho de bom incluído) e seu amor se consolide e me veja humano (com o que tenho de pior incluído).

Acho que o mais difícil de morrer deve ser imaginar que não veremos mais aqueles que amamos. Quando trabalhei com pessoas com câncer (doença nem sempre rápida e fatal) aprendi que a melhor despedida acontece com as relações que foram mais completas e sem falsidades. Se tivemos uma relação truncada, conflituosa e cheia de pendências o luto é mais difícil. Nesse momento tente diminuir as suas pendências e diga o que vem no fundo do seu coração para os outros. Não hesite, você não tem mais nada a perder. Literalmente.

Posso dizer que o amor e o trabalho sempre me guiaram. Mas sei que o amor é um enigma. Hoje me parece muito mais um grande campo em que muitos eventos acontecem por ali. Toda a vez que tentei cercar demais a pessoa amada ela se foi, deixar ela pra lá em demasia também não funcionou. A melhor garantia que posso oferecer hoje é que onde eu estiver estarei ali.

Já fique muito preso ao passado e tudo o que não funcionou ali. Também já fiquei afoito para que o futuro chegasse logo e ele nunca chegou quando eu queria. Então decidi colocar o rabo no meio das pernas e viver aquilo que eu consigo hoje. As vezes minha cabeça me engana e tenta me sequestrar para frente ou para trás. Então eu digo para minha mente “ei, dá uma olhadinha nesse momento entediante, podemos fazer algo com isso, que tal?” e numa fração de segundos a minha mente faceira corre para brincar comigo no presente de novo.

Sou tão jovem quanto você, então não encare como presunção tudo o que eu disse. Posso garantir que existem vidas muito mais interessantes que a minha para você tomar por exemplo. Minhas grandes vivências aconteceram mais no fundo do meu coração do que na vida concreta. No entanto, foi a vida que me coube viver e que me satisfez até agora. A sua vida é a melhor que você pode viver, olhe com compaixão por ela, nada acrescente nela e muito menos mutile. Tudo ali é do tamanho que devia ter. Até sua barba que se despediu de você.

Quando olhamos uma vela temos a ilusão de que ela irá apagar quando a cera chegar ao fim. As vezes acaba antes, outras a luz continua depois. No seu caso, sua vela está te surpreendendo, em alguns minutos. A minha pode me surpreender, assim com todas as pessoas que amamos. Estamos no mesmo barco.

Minha curiosidade (mal que não quero tirar de mim) vai me dizer para que dê um retorno caso tenha conseguido ler. Sei que os leitores do blog vão pedir o mesmo. Então se puder, mande um sinal de fumaça. Sei que esse texto vai ajudar mais quem ficará vivo (ou finge que está vivo como eu) por um pouco mais de tempo que você. Mas se te ajudar em algo, já fico mais que satisfeito.

Ah, se eu pudesse falar uma última coisa seria morra o mais vivo que puder…

Um abraço meu caro, longa vida enquanto ela existir!

_______

Hoje recebo esse recado:

Meu irmão pediu que eu enviasse esse e-mail para você assim que falecesse. Ele me mostrou o texto do seu blog emocionado e falou coisas muito bonitas sobre o amor que sentia por todos nós e se desculpava se nem sempre estava tão presente quanto gostaria. Acrescento que ele partiu essa madrugada de sexta-feira tranquilamente e sem dor, abraçado com papai e seu iPad (inseparável, aposto que vai procurar o Steve Jobs). Sentiremos muito a falta daquele menino que sempre tinha uma palavra carinhosa e um sorriso pronto nos lábios.

"Querido Fred


Fiquei comovido com a honestidade em revelar aspectos da sua vida de um jeito tão afetuoso, gentil e claro. Eu também não sei cortar melancia direito. Achei de extremo carinho você não tentar me convencer de nada como fez o padre.

Nas suas palavras vi que a maior expressão do espiritual é a própria vida e as pessoas à nossa volta: o amor que me une à minha família e os meus amigos. Pensando assim, o meu quarto estava absurdamente lotado de coisas espirituais agora à pouco e pedi que todos me deixassem à sós por minutos para poder escrever essa mensagem. Prefiro que ela seja entregue à você quando eu morrer. Agora posso falar sem peso sobre a morte, pois sei que deixarei meu legado com todos: minha memória.

Meus amigos trouxeram um violão e me cantaram  músicas que eu gosto (uma delashttp://www.youtube.com/watch?v=L3eiOMQVUqs). Meu pai fez bolo de laranja com suco de cajú de dar lombriga. Minha irmã recitou um poema de Vinícius de Moraes que me emociona. Minha namorada só chora e me beija (energia feminina pura) - bem que eu podia durar mais uns dias ;). Meu primo trouxe um pendrive com imagens do meu cachorro latindo para a camera. Mamãe já falecida, me veio fortemente na memória. Não tenho a pretensão de reencontrá-la, pois no meu coração ela nunca partiu. Estou meio sensível hoje! heheheh

Obrigado pela rapidez e prontidão em me responder, nem esperava um post para mim (mentira) e senti o carinho dos seus leitores. Se puder crie uma nota de falecimento no Facebook e peça a eles que compartilhem seu texto com todo mundo (quero ser um morto virtual famoso rsrsr). As pessoas à sua volta tem sorte em tê-lo em suas vidas, pena não ter sido seu paciente ou amigo. Fucei na internet (sou stalker) e vi que fará 31 anos em breve, parabéns psicólogo!

Após cremado, quando as cinzas forem atiradas ao mar digam: aqui nada um homem feliz! :)

Seguirei seu conselho: quero estar bem vivo quando eu morrer!
Um abraço e longa vida a você também...
Do amigo que parte, R."

Hoje meu amor fica sem palavras e como foi pedido por R. se quiser compartilhe essa nota de falecimento."